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Judoca de Mazagão conquista bronze na Copa Internacional de Judô em São Paulo

A medalha que veio do Norte

Maria Eduarda dos Santos, 19 anos, nasceu em Mazagão, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes no Amapá. No último dia 15 de março, ela subiu ao pódio da Copa Internacional de Judô em São Paulo com a medalha de bronze na categoria até 57 kg. A competição reuniu atletas de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai.

A atleta venceu três combates consecutivos, contra uma chilena, uma uruguaia e uma brasileira, e foi superada apenas pela argentina Camila López, campeã da categoria. O resultado marca a primeira conquista internacional de um judoca amapaense fora do eixo Sul-Sudeste.

Segundo a Confederação Brasileira de Judô (CBJ), a Copa Internacional é um torneio de acesso para atletas em desenvolvimento, com pontos válidos para o ranking nacional e observação para seleções de base.

Trajetória fora do eixo: de Mazagão para o tatame paulista

Maria Eduarda começou no judô aos 12 anos, em um projeto social mantido pela prefeitura de Mazagão. O treinador local, João Paulo Mendes, ex-atleta da seleção amapaense, identificou nela um talento raro: "Ela tinha algo que não se ensina, uma leitura de luta muito acima da média".

Aos 15 anos, ela foi aprovada em uma peneira da Federação Amapaense de Judô (FAJ) e passou a treinar em Macapá, a 200 km de casa. A rotina incluía acordar às 4h30 para pegar o único ônibus diário para a capital, treinar por três horas e voltar no mesmo dia.

"Eu não tinha dinheiro para ficar em Macapá. Minha mãe fazia salgados para vender e juntava o dinheiro da passagem", contou a atleta em entrevista à TV Amapá após a conquista.

Elegibilidade e regras antidoping: o que muda para atletas amadores

A conquista de Maria Eduarda acontece em um momento de transição nas regras de elegibilidade para atletas amadores. Desde janeiro de 2026, a CBJ adotou as novas diretrizes da Federação Internacional de Judô (IJF) para controle antidoping em competições de acesso.

Pela nova regra, atletas que disputam torneios internacionais precisam estar cadastrados no sistema da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) e submeter-se a exames periódicos. Maria Eduarda passou pelo primeiro exame surpresa em fevereiro deste ano, antes mesmo da competição.

"O exame foi em casa, no tatame da escolinha. A agente da ABCD chegou de Macapá de carro, às 6h da manhã. Fiquei nervosa, mas sabia que estava limpa", disse a judoca.

O controle antidoping para atletas amadores é um dos pilares da elegibilidade olímpica. A IJF exige que todos os medalhistas em competições internacionais estejam em conformidade com o Código Mundial Antidoping.

O peso de uma vaga olímpica para a região Norte

O Amapá é o estado brasileiro com menor número de atletas olímpicos na história: apenas dois representantes, ambos no atletismo, desde 1980. Uma vaga no judô feminino para Los Angeles 2028 seria inédita para a região.

A Federação Amapaense de Judô informou que Maria Eduarda está na fase de observação para a seleção brasileira sub-21, com possibilidade de integrar o programa de bolsas do Bolsa Atleta em 2027.

"A gente sabe que o caminho é longo. Mas uma medalha como essa mostra que o judô amapaense pode, sim, chegar ao topo", afirmou o presidente da FAJ, Carlos Alberto dos Santos.

Para se ter ideia, a distância entre Mazagão e São Paulo é de 3.200 km, mais que a distância entre Lisboa e Moscou. "A logística é um desafio. Cada viagem custa em média R$ 2.500, e a federação não tem verba para todas", explicou o técnico João Paulo Mendes desafios do esporte amador no Norte do Brasil.

O que vem agora: calendário e próximos passos

Maria Eduarda já tem duas competições confirmadas para o segundo semestre de 2026: a Copa Brasil de Judô (junho, em Brasília) e o Campeonato Pan-Americano Sub-21 (agosto, em Lima, Peru). calendário do judô brasileiro 2026

A atleta também busca patrocínio para custear as viagens. A prefeitura de Mazagão abriu uma campanha de financiamento coletivo, que já arrecadou R$ 8 mil em três dias.

"Eu quero representar meu país. Não importa se sou de Mazagão ou de São Paulo. O tatame é o mesmo para todos", finalizou a judoca.

Perguntas Frequentes

Como funciona o ranking de acesso para competições internacionais de judô?

O ranking é organizado pela CBJ e considera pontos acumulados em torneios nacionais e internacionais. A Copa Internacional de Judô é um torneio de nível 3, que concede até 100 pontos ao vencedor.

Quais são as regras antidoping para atletas amadores no Brasil?

Atletas amadores que disputam competições internacionais precisam estar cadastrados na ABCD e podem ser submetidos a exames surpresa a qualquer momento. A IJF exige conformidade com o Código Mundial Antidoping.

Como um atleta de Mazagão conseguiu viajar para São Paulo?

A viagem foi custeada pela Federação Amapaense de Judô com recursos do Bolsa Atleta estadual e doação da prefeitura de Mazagão.

Qual a chance de Maria Eduarda ir para as Olimpíadas de Los Angeles 2028?

Ela está na fase de observação da seleção sub-21. Para chegar a LA, precisa acumular pontos em torneios internacionais e ser convocada para a seleção adulta. O caminho é longo, mas a medalha é um primeiro passo concreto.

O que é a Copa Internacional de Judô?

É um torneio anual organizado pela CBJ, aberto a atletas de países membros da IJF. Serve como etapa de desenvolvimento e observação para seleções de base.

Nayara Pilatti Rondon
Jornalista de esportes olímpicos e modalidades amadoras
Cobre vôlei, atletismo e judô; mostra a justiça desportiva além do futebol.
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