Europa deve responder à proposta da Fifa para a Copa, diz especialista em geopolítica
O plano de criar a FIFA Forward Enterprise (FFE) é uma jogada de poder com mentalidade norte-americana, e só a Europa, coração do futebol mundial, pode neutralizá-la, afirma o especialista francês Jean-Baptiste Guégan. A proposta levanta questões legais, éticas e de concorrência.
Europa deve responder à proposta da Fifa para a Copa, diz especialista em geopolítica do esporte
O plano de abrir a Fifa a investidores privados por meio da criação de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE), é uma "jogada de poder" impulsionada por uma mentalidade "norte-americana". Apenas a Europa, o "coração do futebol mundial", pode neutralizá-la, disse à AFP Jean-Baptiste Guégan, especialista francês em geopolítica do esporte.
A Europa deve responder à proposta da Fifa para a Copa porque é o centro do futebol mundial, onde estão as principais ligas e a maior receita de direitos. Segundo o especialista, cabe à Uefa agir e à União Europeia usar o direito da concorrência para neutralizar a FIFA Forward Enterprise, plano que abre a entidade a investidores privados.
A surpresa do anúncio e a tomada de poder na Fifa
O anúncio do projeto, do qual várias confederações e associações nacionais dizem ter se inteirado somente agora, não surpreendeu Guégan. "O fato de as confederações não terem sido informadas não é nenhuma surpresa, embora poucos esperassem que as coisas chegassem a esse ponto", afirmou. Ele lembra que, considerando o Prêmio da Paz da Fifa e as controvérsias em torno da Copa do Mundo de 2026 ou da Copa do Mundo de Clubes, "nada mais seja surpreendente".
Para o analista, o que se vê é a personalização e a tomada do poder político dentro da Fifa, manifestando-se em iniciativas como a FFE. "Estamos vendo uma tomada de poder que vai além do que testemunhamos sob Sepp Blatter", antecessor de Gianni Infantino na presidência da Fifa, comparou.
Preocupações jurídicas e o direito da concorrência
A União Europeia já apontou especificamente para o direito da concorrência como um ponto crítico. Guégan considera essa questão "obviamente" relevante. Além disso, o projeto traz à tona o status dos jogadores e sua disponibilidade para os clubes, seus empregadores. "Isso implica a possibilidade de surgimento de outras competições. No fim das contas, nada impediria outros atores de criar uma competição diferente ou de fragmentar o cenário", alertou.
O especialista vê como positivo que a UE esteja reagindo sob a ótica do direito da concorrência. "Objetivamente, essa é uma das poucas ferramentas de que ela dispõe, mas a Europa deve utilizá-la, pois é o coração do futebol mundial: sua economia está sediada lá, as principais federações são europeias e são elas que mais contribuem financeiramente e que geram a maior receita proveniente de direitos", explicou.
A questão ética e a mercantilização do futebol
Além das questões legais, muitos órgãos e países também discutem o aspecto ético, criticando a mercantilização do futebol. "Antes de discutir a legalidade, há, de fato, a questão da moralidade", afirmou Guégan. Ele questiona se o presidente da Fifa tem o direito de fazer isso. "Obviamente, ele usará as confederações para levar isso adiante, mas estamos lidando com uma mentalidade tipicamente norte-americana, uma mentalidade completamente diferente de como as federações foram originalmente estabelecidas no século XIX", disse.
Para o especialista, a proposta coloca em xeque o modelo esportivo europeu, "o próprio modelo que moldou a Fifa e o esporte como o conhecemos hoje".
O interesse pessoal de Gianni Infantino
A questão do interesse pessoal de Gianni Infantino, candidato à reeleição e que poderia se tornar CEO da nova empreitada da FFE, está no cerne do problema, segundo Guégan. "Estamos falando de um homem que, além de seus sonhos de grandeza e sua inclinação para confraternizar com os poderosos, está levantando questões éticas e morais genuínas, para não mencionar as legais e institucionais", afirmou.
Em resumo, na visão do analista, Infantino "está literalmente vendendo a instituição que lidera, e o bem comum que é o futebol, para atores movidos por uma lógica norte-americana, uma lógica de poder, enquanto se aproveita de sua proximidade com o círculo íntimo de Trump".
A possível chegada de Joshua Kushner e o conflito de interesses
A possível chegada de Joshua Kushner, cofundador da empresa de investimentos Thrive Capital e irmão de Jared Kushner (genro de Donald Trump), para liderar o grupo de potenciais investidores ilustra essa proximidade. "O conflito de interesses é enorme", afirmou Guégan. Ele lembra que ver novamente um Kushner à frente de um grupo de potenciais investidores remete ao período anterior à covid, quando Gianni Infantino idealizou uma Superliga Mundial apoiada por fundos japoneses, especificamente o SoftBank, e fundos sauditas do príncipe Mohammed bin Salman.
"Existe um movimento, facilitado pela correlação de forças, para explorar uma situação favorável a fim de se apropriar de um ativo comum e extrair o máximo de lucro dele", explicou. Para o especialista, o nível de ousadia beira o de Donald Trump, e a dinâmica de poder "beira uma manobra feita mediante a força".
Os riscos para as competições e o futebol feminino
Os riscos do projeto são inúmeros, segundo Guégan. Estão ligados, principalmente, à distorção da própria competição, que se transformaria em uma mera mercadoria. "Isso significa mais jogos", alertou. O especialista levanta questões sobre o status dos jogadores das seleções, sua remuneração exata, a verdadeira distribuição de recursos para as federações como um todo e os mecanismos de solidariedade.
"O que acontecerá com a Copa do Mundo feminina? E com outros tipos de competições? Terão de ser eliminadas ou rebaixadas?", questionou.
O papel da Europa no embate
"A Europa é o centro do embate e, sobretudo, o centro dos negócios, pois é onde está o dinheiro", afirmou Guégan. Ele argumenta que, mesmo que o Golfo coloque dinheiro na mesa, é a Europa que terá, no fim das contas, o poder de impedir a participação dos melhores jogadores. "As melhores ligas estão na Europa. Portanto, cabe à Uefa (a Confederação Europeia de Futebol) agir, e a União Europeia seguirá o mesmo caminho", concluiu.
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Perguntas Frequentes
Por que a Europa é considerada o coração do futebol mundial?
Segundo o especialista Jean-Baptiste Guégan, a economia do futebol está sediada lá, as principais federações são europeias e são elas que mais contribuem financeiramente e geram a maior receita de direitos.
O que é a FIFA Forward Enterprise (FFE)?
É o plano da Fifa de criar uma empresa para abrir a entidade a investidores privados, uma jogada de poder que, segundo analistas, tem mentalidade norte-americana.
Quais são as principais críticas ao projeto?
As críticas envolvem questões jurídicas (direito da concorrência), éticas (mercantilização do futebol) e de conflito de interesses, especialmente pelo possível envolvimento de Joshua Kushner e a proximidade de Gianni Infantino com o círculo de Trump.
Como a União Europeia pode reagir?
A UE pode usar o direito da concorrência como ferramenta, já que é uma das poucas que possui, segundo Guégan. A Uefa também deve agir para proteger o modelo esportivo europeu.
Quais são os riscos para as competições existentes?
Os riscos incluem mais jogos, distorção das competições, questionamentos sobre o status dos jogadores, remuneração, distribuição de recursos e o futuro da Copa do Mundo feminina.