Kushner: aliados de Trump na mira da Fifa para vender ações
A Fifa quer vender até 20% de uma nova empresa, a Fifa Forward Enterprise, para levantar US$ 10 bi. Entre os interessados está Joshua Kushner, irmão de Jared, genro de Trump. Entenda o plano e a resistência na Europa.
Dez dias após o fim da Copa do Mundo de 2026, a Fifa anunciou um plano ambicioso. A entidade quer criar uma nova empresa para atrair investidores externos e levantar até US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,4 bilhões) para financiar o desenvolvimento do futebol mundial. Entre os grupos interessados está a Thrive Eternal, companhia fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O que é a Fifa Forward Enterprise (FFE)?
A Fifa Forward Enterprise (FFE) é o nome da nova empresa que a entidade quer criar. Ela concentraria todos os direitos comerciais da Fifa, incluindo receitas de transmissão, patrocínios, venda de ingressos e licenciamento, além da execução operacional de seus torneios. "A administração da Fifa está analisando a ideia de consolidar todos os direitos comerciais, abrangendo transmissão, patrocínio, venda de ingressos e licenciamento, juntamente com a execução operacional de seus torneios, por meio da criação da Fifa Forward Enterprise (FFE)", declarou a entidade máxima do futebol mundial.
A Fifa afirma que manterá o controle da nova empresa por meio de maioria no conselho de administração, bem como a autoridade exclusiva sobre governança, regulamentos, calendário e competições. Segundo diversas reportagens, a participação externa seria inicialmente de cerca de 20%. "A Fifa convidará terceiros para realizar investimentos minoritários, sem poder de controle, nesta entidade", acrescentou o comunicado.
Os números do projeto
Caso saia do papel, a Fifa Forward Enterprise deve gerar US$ 4,2 bilhões (R$ 21,6 bilhões) somente neste ano. Segundo a Fifa, "todos os lucros líquidos serão reinvestidos no futebol". A entidade também promete ampliar os recursos para suas associações-membro por meio de um novo mecanismo de financiamento, o Programa Fifa Fast Forward (FFFP). Ao consolidar os programas de financiamento já existentes, a Fifa pretende acumular um fundo superior a US$ 10 bilhões (R$ 51,4 bilhões) ao longo dos próximos quatro anos para financiar o desenvolvimento do esporte.
Quem são os Kushner?
Para tirar o projeto do papel, a Fifa informou que trabalha com o banco JP Morgan e a Thrive Eternal, empresa criada por Joshua Kushner. Segundo a entidade, a Thrive Eternal liderará um consórcio internacional de possíveis investidores interessados em adquirir uma participação minoritária na nova estrutura, enquanto o J.P. Morgan atuará como assessor financeiro da operação.
Joshua Kushner fundou a Thrive Capital em 2009. A gestora se especializou em investimentos de tecnologia e ficou conhecida por apostar em empresas como Instagram, Stripe, OpenAI e Nubank ainda em fases de crescimento. Já a Thrive Eternal, lançada em 2026, foi criada com uma proposta diferente. Em vez de investir em startups, a empresa busca participações de longo prazo em ativos considerados duradouros, como franquias esportivas, marcas históricas e instituições de relevância cultural, como a Fifa. Um dos primeiros investimentos foi uma participação no San Francisco Giants, tradicional equipe da MLB, liga de beisebol.
Seu irmão, Jared Kushner, ganhou notoriedade política ao atuar como conselheiro sênior de Donald Trump entre 2017 e 2021, além de ser casado com Ivanka Trump, filha do presidente americano. Durante esse período, Jared vendeu sua participação na Thrive Capital para evitar potenciais conflitos de interesse.
A conexão com a Panini e a Topps
A aproximação entre o grupo de Joshua Kushner e a Fifa não se limita ao novo projeto de investimentos. Em maio de 2026, a entidade anunciou que a parceria histórica com a Panini será encerrada após a Copa do Mundo de 2030. A partir de 2031, os direitos de produção de figurinhas, álbuns e outros colecionáveis oficiais da Fifa passarão para a Topps, marca controlada pela Fanatics. A mudança tem uma conexão indireta com a Thrive Capital: a gestora de Joshua Kushner é uma das investidoras da Fanatics, empresa que adquiriu a Topps e vem ampliando sua presença no mercado global de colecionáveis esportivos.
Assim, embora Donald Trump não tenha qualquer participação direta nesses negócios, a proximidade entre a Fifa e empresas ligadas ao ecossistema de Joshua Kushner ajudou a aumentar a atenção sobre o projeto, especialmente por causa da relação familiar entre Joshua e Jared Kushner. Ainda assim, Joshua tem um histórico político próprio e já manifestou posições contrárias a Trump em eleições anteriores.
A resistência na Europa
A proposta da Fifa encontrou forte resistência na Europa. A Uefa, que reúne as federações nacionais do continente e costuma adotar uma postura crítica em relação às decisões da entidade, foi uma das primeiras a se manifestar. "A alma e a governança do futebol não são ativos passíveis de especulação, especialmente sem transparência sobre o destino dos lucros financeiros. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê-lo", afirmou a entidade em comunicado.
As críticas também partiram de antigos dirigentes do futebol mundial. Sepp Blatter, presidente da Fifa entre 1998 e 2015 e antecessor de Gianni Infantino, declarou que a proximidade entre a cúpula da entidade e o governo dos Estados Unidos estaria levando o futebol a uma lógica financeira excessiva. "Ninguém tem o direito de vender o nosso esporte", escreveu em publicação nas redes sociais.
A proposta também gerou reações no meio político. Entre os críticos está Andy Burnham, primeiro-ministro do Reino Unido, que afirmou que "o futebol não pertence aos investidores", mas aos torcedores que acompanham seus clubes semanalmente. "A Copa do Mundo", acrescentou ele no X, "não é um produto. É a maior competição do esporte mundial e nunca pertenceu a ninguém para ser vendida", insistiu.
Além da Uefa, a FA (Associação de Futebol da Inglaterra) também demonstrou forte preocupação com a iniciativa. A entidade afirmou que foi pega de surpresa pela proposta de criação da FIFA Forward Enterprise e pela busca por investidores privados. "Estávamos completamente alheios a essa proposta e não temos detalhes substanciais sobre ela, incluindo qual é exatamente a proposta e quais condições estão associadas", declarou a federação. A FA também questionou a forma como o projeto foi conduzido até agora. "Com base nas informações limitadas disponíveis, estamos profundamente preocupados com a falta de processo e governança que levou a este ponto, bem como com o aparente teor e os princípios envolvidos." Por fim, a entidade afirmou que só adotará uma posição definitiva após receber mais informações da Fifa. "Quando a proposta for apresentada de forma completa e transparente, conforme agora prometido pela Fifa, deixaremos clara nossa posição e faremos novos comentários sobre o assunto."
Perguntas Frequentes
Quem são os Kushner?
Joshua Kushner é fundador da Thrive Capital e da Thrive Eternal. Jared Kushner, seu irmão, foi conselheiro sênior de Donald Trump e é casado com Ivanka Trump.
O que é a Fifa Forward Enterprise?
É uma nova empresa que a Fifa quer criar para concentrar todos os seus direitos comerciais e vender uma participação minoritária a investidores externos.
Quanto a Fifa quer levantar?
Até US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,4 bilhões) ao longo de quatro anos, segundo a entidade.
Por que a Uefa é contra?
A Uefa afirma que "a alma e a governança do futebol não são ativos passíveis de especulação" e que "não cabe à Fifa vendê-lo".
A Thrive Capital tem relação com a Topps?
Sim. A Thrive Capital, de Joshua Kushner, é investidora da Fanatics, empresa que controla a Topps, futura detentora dos direitos de figurinhas da Fifa a partir de 2031.